Endless talking, life rebuilding
Um breve relato sobre depressão
Estranho digitar as primeiras palavras de uma nova missiva depois de tanto tempo sem ter disposição suficiente para abri-la. Um universo inteiro de possibilidades se abrem, e as palavras podem tomar qualquer direção imaginável, muitas vezes uma direção diferente da que o autor pretendia quando inicia um novo texto. Mas estamos aqui novamente, e é isso que importa.
Nos últimos 19 meses, escrevi apenas uma mensagem, no longínquo abril de 2025, e escrevi um pouco sobre minha depressão. Nem é preciso dizer que ela continuou bastante presente deste então, e que somente agora, depois de muita dor e muita reflexão a fórceps, eu volto a falar, e recomeço falando da depressão, novamente. Como o saudoso Mark Fisher apontou muito bem em um artigo onde falava de sua batalha contra a doença,
Escrever sobre sua própria depressão é difícil. Faz parte da depressão uma voz “interior” desdenhosa que nos acusa de autoindulgência – “você não está deprimido”, “você está apenas sentindo pena de si mesmo”, “dê um jeito nisso” –, passível de ser disparada ao tornarmos pública a condição.
Para mim, a depressão está ligada principalmente a uma necessidade de me cobrar em tudo o que faço. Uma cobrança excessiva, insistente, obsessiva, que joga uma sombra espessa sobre qualquer êxito que eu alcance, qualquer prazer verdadeiro que eu tenha no dia-a-dia, qualquer risada que eu dê de alguma piada que vejo por aí. E a autocobrança me leva, por um lado, a um perfeccionismo impossível de ser alcançado, pois esse perfeccionismo é, por definição, algo inteiramente fantasioso; e, por outro lado, a uma baixa estima a mais baixa que se possa imaginar.
Muitas coisas podem ajudar alguém com depressão a passar pelos piores momentos, mesmo que estes piores momentos pareçam tão profundos que durarão para sempre. Cada um tem sua coleção de coisas, que servem como pequenos botes navegando por mares turbulentos.
Uma das minhas boias foi um trecho do filme As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty (2000), do cineasta de vanguarda norte-americano Jonas Mekas. Vi o filme inteiro uma única vez, há alguns anos, na sala do IMS-SP. Quase cinco horas de um épico pessoal, com uma cronologia particular, baseado numa intuição sentimental e na intensidade das memórias suscitadas pelas imagens. Sem dúvida, uma das grandes sessões de cinema da vida.
O trecho a seguir foi um dos que mais ficaram na memória. Ao que parece, em 1966 (ou seja, antes de fazer seus melhores filmes e fundar, junto com colegas do cinema de vanguarda, o Anthology Film Archives), Mekas passou por um profundo episódio depressivo, e registrou as aflições que sentia em um diário. Anos depois, ele pediu a um amigo que lesse essas entradas, e a narração resultante é de um tom neutro, monocórdio, apressado, condizente com o que um depressivo muitas vezes sente, ou seja, nada. Mekas guardou essa gravação e a recuperou na mesa de edição deste filme, juntando com as imagens que você verá agora - em contraste, imagens de um homem feliz, aproveitando a vida da melhor maneira possível. Segue o vídeo, e abaixo uma tradução para o português dos diários de Mekas:
“A dor é mais forte do que nunca. Eu vi fragmentos de paraísos perdidos e sei que estarei tentando retornar desesperadamente, mesmo doendo. Quanto mais eu pendo para as regiões do nada, mais sou jogado de volta a mim mesmo, com profundezas cada vez mais assustadoras sob mim, até que o meu próprio ser fica tonto. Há breves lampejos de céu aberto, como se perpassassem uma árvore, então tenho certa ideia de onde vou, mas ainda há muita claridade e o sentido das coisas, eu tiro sempre o mesmo número de certo modo. Então eu vomito pedaços fragmentados de palavras e sintaxes dos países por que passei, membros quebrados, matadouros, geografias. Meu coração está envenenado, meu cérebro deixado em retalhos de horror e tristeza. Eu nunca o decepcionei, mundo, mas você me fez coisas horríveis. Esta sensação de não ir a lugar algum, de estar estagnado, a sensação da primeira estrofe de Dante, como se temesse o próximo passo, o próximo estágio. Desde que eu não me totalize, que eu fique na superfície, não tenho de seguir em frente, não tenho de tomar decisões dolorosas, terríveis, escolhas, aonde ir e como. Pois no fundo há decisões terríveis a tomar, passos terríveis a dar. É aos quarenta anos que morremos quando não se morre aos vinte. É aos quarenta que traímos a nós mesmos, nossos corpos, almas, ficando na superfície ou afundando, mas através das decisões mais fáceis, retardando, regressando nossas almas por milhares de reencarnações. Mas me aproximo do fim agora, a questão é se o farei ou não. Minha vida se tornou muito dolorosa e me pergunto o que faço para sair de onde estou, o que estou fazendo com a minha vida. Levei muito tempo para perceber que é o amor que distingue o homem das pedras, árvores, chuva, e que podemos perder nosso amor e que o amor cresce quando amamos, sim, estive completamente perdido, tão perdido. Houve tempos em que eu queria mudar o mundo, eu queria pegar uma arma e abrir um caminho atirando pela civilização ocidental. Agora quero deixar os outros em paz, eles têm seus terríveis destinos a cumprir. Agora quero abrir um caminho através de mim mesmo, na noite espessa de mim mesmo. Por isso mudo meu curso, seguindo por dentro, por isso salto na minha própria escuridão. Deve haver algo, de algum modo, eu sinto, muito em breve, algo que me dará algum sinal para eu seguir em uma direção ou outra. Devo ser muito aberto e atento agora, completamente aberto. Sei que está vindo. Estou andando como um sonâmbulo esperando por um sinal secreto, pronto para seguir um caminho ou outro, esperando num enorme silêncio branco pelo menor sinal ou chamado. E me sento aqui sozinho e distante de você e é noite e estou refletindo sobre tudo ao meu redor e penso em você. Eu vi nos seus olhos, no seu amor, você também está pendendo para as profundezas do seu próprio ser em círculos cada vez maiores. Eu vi felicidade e dor nos seus olhos, e reflexos dos paraísos perdidos e reconquistados e perdidos novamente, aquela terrível solidão e felicidade, sim, e reflito sobre isso, e penso em você, como dois astronautas solitários no frio espaço cósmico, enquanto me sento aqui tarde da noite sozinho e penso nisso tudo.”
Keep looking for things in places where there is nothing.

Saiba sempre que você é muito querido. Que você tenha sempre ótimos dias de sol e de bons livros, também amigos e essa escrita companheira que te conecta com tanta gente que a aprecia e é tocada por ela.